segunda-feira, 28 setembro , 2026

Bolsonaro, ideologia, MEC, esquerdismo, direita religiosa

Escrevi e a Editora Acadêmica publicou Liberdade Privada e Ideologia. Para a minha satisfação, é obra esgotada. Aurélio Wander Bastos me fez a gentileza, em 1993, de cuidar da apresentação do livro. Do que ele disse, edito alguns trechos.

O autor “disserta sobre a utilização das ideologias pelo poder político, para acomodar as consciências individuais aos seus interesses e objetivos […] Estuda os efeitos das crenças e valores instituídos na determinação e submissão da consciência livre.

Considera livre o rebelde não apenas às ideologias impostas à sua própria consciência – a consciência de cada um não é a consciência individual, mas sim a consciência estabelecida –, mas ao próprio método que viabiliza os sistemas de ideias.

Entende que o poder manipula a opinião pública, não tanto para formar consciências, mas para deformá-las, para desencontrá-las de sua própria história privada. O autor conclui ou nos permite concluir que não existe uma história da liberdade privada, mas uma história dos mecanismos de corrupção da liberdade – a ideologia”.

Mesmo livro, palavras minhas: “A administração da Sociedade não ocorre de forma ostensiva. Pelo contrário, é sutil e se realiza com a aquiescência do administrado, no mais das vezes com a defesa apaixonada ou com suportes teóricos bem elaborados. O controle da Sociedade dá-se através da ideologia”.

À página 20 cito Nelson Jahr Garcia (O que é propaganda ideológica, Brasiliense): A função da ideologia “é a de formar a maior parte das ideias e convicções dos indivíduos e, com isso, orientar todo o seu comportamento social”.

Então, retomo: “A ideologia não se realiza a partir do indivíduo. A pessoa não a cria, não decide sobre ela. Pelo contrário, é uma totalidade ideológica que produz o indivíduo, ou mesmo o grupo. É a partir de um contexto ideológico que se forma atua ideologicamente, reproduzindo uma ideologia e um ‘ideologizado’, criando e mascarando as relações de poder e as contradições decorrentes (p. 20).

Os pressupostos que informam o comportamento do povo, o rumo a seguir, não emergem da ‘consciência’ de cada pessoa ou de ‘debates’ de grupos organizados. Há dogmas universais assumidos e reproduzidos pela ideologia (p. 21).

A ideologia cumpre funções de desenvolvimento emocional, de unificação de esforços, de ocultamento de interesses, de projeção para o futuro, de autoidentificação do indivíduo ou de grupos, de comprometimento com ideias e apoio a propósitos, de padronização de conceitos, de desencadeamento de ações.

As relações indivíduo-ideologia, se transcendem a percepção popular, são percebidas, em virtude de vantajosamente situados, por alguns, que podem interferir, e interferem, nas suscetibilidades de pessoas e grupos, logrando obter atitudes que parecem, a quem as pratica, nascidas de si, mas que, definitivamente, não são” (p. 23).

Resumo: somos produto de relações de poder; relações de poder tramam ideologias e produzem ideologias. Ideologias são a matéria do nosso pensamento. Como seres ideologizados, pensamos ideologicamente conforme a ideologia que nos ideologizou.

Daí, suponho, a frase de poder do Bolsonaro: “A questão ideológica é mais grave do que a corrupção.” Daí, seguramente, a sua escolha para o MEC. O novo ministro espelha a mentalidade da bancada evangélica: antiesquerdismo, elogios à Ditadura Militar, críticas às questões de gênero, apoio ao Escola Sem Partido.

“Os pastores não gostaram de ver alguém com perfil técnico chefiando o MEC e pressionaram Bolsonaro. Ricardo Vélez Rodrígues, que defende entusiasmadamente vários itens da pauta conservadora, vai compor a ala mais ideológica do governo” Hélio Schwartsman, FSP, 24nov18, editado).

Ele diz a que vem: Gerir a Educação guardando “valores caros à sociedade brasileira, que, na sua essência, é conservadora e avessa a experiências que pretendem passar por cima de valores tradicionais ligados à preservação da família e da moral humanista” (Renata Cafardo, Luiz Fernando Toledo, Estadão, 24nov18).

O MEC petista flertou com o esquerdismo barato: apologia de Cuba e da Venezuela; desdém da democracia: “meio da exploração capitalista”; defesa do terror jihadista; desprezo aos diretos humanos: “proclamação ocidental para destruir identidades culturais de outros povos” etc. A direita empolgou a questão: “No centro da mensagem da campanha de Bolsonaro não estava a economia, mas a agenda de valores e costumes” (Demétrio Magnoli, FSP, 24nov18, FSP).

Alguns (poucos) dissemos sobre os excessos da nossa esquerda (que é de direita); sobre o assalto crescente da mentalidade religiosa à ordem republicana; sobre a intelligentzia laica ter-se posto tediosa dos assuntos políticos; sobre o quanto a esquerda honesta condescendeu com a ladroagem petista; sobre um candidato do campo democrático eleitoralmente viável como alternativa ao EleNão.

É passado. A indignada reação popular somou-se aos preconceitos latentes acionados pelas falas de ódio da campanha. Ideologia de retrocesso: “O empenho evangélico ultrapassou a esfera religiosa, tornando-se uma força política. A última eleição não deixa dúvida, Deus se fez presente no palanque, pregando uma agenda conservadora, baseada na moral e nos bons costumes” (Fernanda Torres, FSP, 23nov18).

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